15 janeiro 2009

Balanço parcial das férias: Manhãs de sono (quase) profundo; tardes demasiadamente longas; noites de pura inquietação; madrugadas hilárias promovidas pelo Fala Que Eu Te Escuto. Enfim, livros interrompidos, pilha de filmes não assistidos; viagens abandonadas; galhofa semanal com os amigos.

Imaginemos, portanto

Acabo de ler em mais de um portal de noticias que os ataques israelenses em Gaza já totalizam mais de mil mortes, a grande maioria desses são de civis. Treze foram os mortos contabilizados pelos israelitas, dez eram militares. É uma situação chocante, não há como permanecer apático ou não revoltar-se com tamanha desrespeito a Humanidade. Fico com a sempre (ou quase sempre, se preferir) consciente e sensata argumentação de Saramago:


Imaginemos
Imaginemos que, nos anos trinta, quando os nazis iniciaram a sua caça aos judeus, o povo alemão teria descido à rua, em grandiosas manifestações que iriam ficar na História, para exigir ao seu governo o fim da perseguição e a promulgação de leis que protegessem todas e quaisquer minorias, fossem elas de judeus, de comunistas, de ciganos ou de homossexuais. Imaginemos que, apoiando essa digna e corajosa acção dos homens e mulheres do país de Goethe, os povos da Europa desfilariam pelas avenidas e praças das suas cidades e uniriam as suas vozes ao coro dos protestos levantados em Berlim, em Munique, em Colónia, em Frankfurt. Já sabemos que nada disto sucedeu nem poderia ter sucedido. Por indiferença, apatia, por cumplicidade táctica ou manifesta com Hitler, o povo alemão, salvo qualquer raríssima excepção, não deu um passo, não fez um gesto, não disse uma palavra para salvar aqueles que iriam ser carne de campo de concentração e de forno crematório, e, no resto da Europa, por uma razão ou outra (por exemplo, os fascismos nascentes), uma assumida conivência com os carrascos nazis disciplinaria ou puniria qualquer veleidade de protesto.
Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões que a nossa segurança sempre estará assegurada pelas constituições que nos regem, podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. As imaginadas manifestações dos anos trinta seriam reprimidas com violência, em algum caso com ferocidade, as nossas, quando muito, contarão com a indulgência dos meios de comunicação social e logo entrarão em acção os mecanismos do olvido. O nazismo alemão não daria um passo atrás e tudo seria igual ao que veio a ser e a História registou. Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade “judeonazi”, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos.

09 janeiro 2009

O meu Guri

Sempre que os telejornais noticiam a morte de algum jovem ou adolescente favelado (não gosto dessa expressão, mas...) em decorrência das mal planejadas ações policiais de caça a traficantes, eu me lembro da música O Meu Guri composta pelo Chico Buarque. Chega a ser realmente impressionante como não consigo desassociar a cena daquelas mães desesperadas, clamando por justiça (?) dessa música. A trilha sonora perfeita para o drama ideal, avalio.


Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar
Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar
Como fui levando
Não sei lhe explicar
Fui assim levando
Ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí! Olha aí!




Olha aí! Olha aí!

Olha aí!

Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!


Chega suado
E veloz do batente

Traz sempre um presente
Prá me encabular

Tanta corrente de ouro
Seu moço!
Que haja pescoço
Prá enfiar
Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta

Terço e patuá
Um lenço e uma penca

De documentos
Prá finalmente
Eu me identificar

Olha aí!



Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!


Chega no morro
Com carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador

Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Tá um horror
Eu consolo ele
Ele me consola
Boto ele no colo
Prá ele me ninar
De repente acordo

Olho pro lado

E o danado já foi trabalhar
Olha aí!


Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega estampado

Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente
Seu moço!
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo

De papo pro ar
Desde o começo eu não disse
Seu moço!
Ele disse que chegava lá
Olha aí! Olha aí!


Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí
Olha aí!
E o meu guri!...

07 janeiro 2009

Enquanto faço conjeturas sobre poesia o Oriente Médio vivencia mais um conflito... Portanto, aos radicais islâmicos e ao governo israelense dedico com "carinho" Pink Floyd:


Poesia

Carlos Drummond de Andrade ao ser perguntado certa vez o porquê escrever poesia, respondeu ser esta a forma mais 'fácil' que ele encontrou para expressar-se. Poesia sempre me pareceu 'difícil', embora difícil não seja a palavra ideal para definir a minha relação com essa forma especifica de arte. Gosto de alguns poetas, mas acho complexo fazer juízo de valor ou coisa do tipo. É necessário, acredito, compartilhar do mesmo universo que o poeta para melhor endetendê-lo, é preciso identificação. Bom, esse é o primeiro de uma série de posts em que pretendo compartilhar os poetas e poemas com os quais me identifico.



Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


(Fernando Pessoa. In: Cancioneiro)

06 janeiro 2009

Antes tarde do que nunca

Nem tudo na arte contemporânea é desprezível. Recentemente eu mesmo escrevi um texto para o Mistureba sobre um artista desse período que muito me impressionou. Postarei este texto aqui para compravar que não sou nenhum acedemicista, ou defensor de estéticas convencionais. Em suma o texto:







Estava navegando nas correntezas, um tanto quanto tranqüilas, desse estranho e vasto oceano ciber. Quando me deparei com a história de um pintor estadunidense contemporâneo de nome Jean Michel Basquiat. Eu que até o momento cria ter um repertório decente em artes plásticas me surpreendi com o fato de desconhecê-lo completamente (!), nunca havia lido ou ouvido algo sobre ele... Mais um artista que não fora reconhecido em vida, como tantos outros? Conjecturei. Mas não, Jean Michel teve sim um grande reconhecimento em vida como comprovam as inúmeras exposições em galerias e capas de revista relevantes internacionalmente. Talvez tenha sido ofuscado pelo ‘gênio’ Andy Warhol – de quem se tornou amigo –, e caído, por fim, no ostracismo típico de uma geração que tem pouca ou quase nenhuma memória? Pois bem, indagações que procuram em vão justificar a minha ignorância!

Mais criativa que a versão de Duchamp

Abro um parêntese aqui, portanto, para salientar um pouco da biografia de Basquiat. Nascido em 22 de dezembro de 1960, no Brooklyn (NY) era filho de mãe porto-riquenha e pai haitiano. Por volta dos 17 anos começou, juntamente com um amigo, a grafitar em prédios de Manhattan, e o teor das mensagens começou a chamar atenção das pessoas... Em 1978, um ano depois de “debutar” no grafite, Jean Michel saiu de casa e da escola, mudou-se para a cidade onde começou a trabalhar nas ruas vendendo camisetas e postais para sobreviver. Já no início da década de 80 ele ascende ao status de artista, ganhando notoriedade internacional. Os anos que se seguem são de inúmeras exposições e capas de revistas como a The New York Times. Entretanto, em meio a todo este sucesso – pouco comum, aliás, nas artes plásticas que têm por hábito cultuar os mortos –, Basquiet se torna um paranóico viciado em drogas. Enfim, como pôde ser intuído a partir do primeiro parágrafo ele está morto, e há muito tempo. Morreu em 1988, vítima de overdose aos 27 anos e horas depois de ter um quadro arrematado por 300 mil dólares...

Mais uma vez fico consciente de que “só sei que nada sei” tal qual o velho Sócrates (apesar de ser este um axioma falacioso, ou seja, se afirmo ‘só sei que nada sei’, significa, afinal, que sei algo: o nada!) Delírios à parte, é válido conhecer um pouco mais sobre a trajetória desse artista “que saiu do meio das ruas para se alojar dentro de galerias e museus de Nova Iorque”. Como se diz popularmente, antes tarde do que nunca.

A Pop-pobre Arte

Volto mais uma vez a um tema muito caro a mim, a arte contemporânea. Como pode ser percebido por meio do post anterior sou um daqueles que acham necessário certa ponderação e principalmente análise crítica às obras artísticas concebidas pós-Duchamp e seu ideal de anti-arte. No entanto para dar continuidade a essa série de quimeras (superficiais, retóricas etc, mas necessárias a minha própria organização mental) ouso escrever sobre um outro mago e paradigma do século XX: Andy Warhol.

Assim como por Duchamp nutro pelas obras de Warhol uma desconfiança. É demasiadamente irritante ouvir e ler por aí (mesmo quando são pessoas sensatas a falar e escrever) afirmações que insistem em proclamar a grandiosidade artística e intelectual do fomentador da pop art. Mais um ‘fazedor de arte’, como inúmeros espelhados por esse mundo. Essa é a minha opinião sobre Andy de forma direta e clara. Indireta e retoricamente eu afirmo ser ele um homem inteligente que soube manipular astutamente os formadores de opinião e imprimir, ou melhor, instaurar um período de mega industrialização da arte, um segundo momento do processo inaugurado por Duchamp. Os pensadores da Escola de Frankfurt teciam criticas atrozes sobre a industrialização da Arte (Indústria Cultural) e a conseqüente perda do status de arte dessa obra reproduzida largamente – uma vez que esta perde a “aura” que lhe credita com tal status. Só posso imaginar Adorno e Horkheimer enfurecidos em algum umbral filosófico por aí.
Divagações à parte, é claro que a obra de arte é um objeto e desde há muito tempo é comercializado. Também é pertinente dizer que muitos artistas se tornaram empregados do mercado internacional de arte como Picasso e Salvador Dalí, para ficar em dois nomes expressivos. Mas também é fato que tanto o primeiro quanto o último possuíam propostas estéticas, trabalhos e construções de significações mais complexas que àquelas criadas por Andy. Aliás, para não ser injusto até digo que uma obra de Warhol é digna de análise: a Sopa Campbell. É interessante perceber que ele ousou reproduzir o indivduo (Marilyn Monroe, por exemplo) e individualizar o industrializado. Algo interessante, embora não merecedor de tanto culto.
Enfim, termino mais este post com um trecho do artigo de Luciano Trigo, colunista blogueiro do G1: “Se Duchamp foi decisivo para o salto conceitual da arte, que passou a dispensar suportes e até mesmo a “mão” do artista (o que teve desdobramentos infinitos), Andy Warhol (1928-1987), por sua vez, revolucionou a relação entre arte e capitalismo: se a arte sempre foi também mercado, a partir dele passou a ser principalmente mercado: o êxito (não apenas comercial, mas também midiático, pois o artista deve ser uma estrela) se tornou o critério exclusivo da qualidade da obra, não sua conseqüência eventual. Isso explica, aliás, por que a crítica de arte perdeu importância: ela não tem nada a acrescentar a uma relação que já está dada, é tão inútil quanto buscar um sentido estético no sobe-e-desce das ações da Bolsa de Valores.” (O pensamento vivo de Andy Warhol. Acesso em 5 de janeiro de 2009. Disponível em: http://colunas.g1.com.br/maquinadeescrever/2009/01/04/o-pensamento-vivo-de-andy-warhol/ )